Alecrim e vassourinha: de Regina a Mercury

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A Garota de Ipanema foi o precedente para a explosão de estilos dentro da música brasileira – e Portugal não saiu incólume. É altura de ouvir o que aconteceu desde a Revolução dos Cravos até aos anos 2000.

Uma revolução, para o ser, tem que chegar à boca do povo – e a bossa nova não soube fazer outra coisa. 

Pelas gargantas do mundo, a música de João Gilberto, Tom Jobim ou Marcos Valle fez caminho, e amenizou uma relação tantas vezes turbulenta com Portugal. Após 1974, a bossa nova abriu um canal de comunicação luso-brasileiro, promovendo o toque entre artistas, mas unilateral no que toca ao sucesso de vendas, com um mercado português cada vez mais receptivo ao Brasil (e não vice-versa).

Para lubrificar o trânsito luso de importações musicais, foram protagonistas a vaga de imigrantes brasileiros nos anos 80 e a MPB, popular na rádio ou na TV. A imprensa musical, com espaço no semanário Se7e ou nos jornais Portugal Hoje e Música & Som, era um importante espaço de divulgação para artistas brasileiros como Fafá de Belém e Gal Costa.

Ao passo do “recrudescimento da ditadura militar brasileira”, como escreve Amanda Fernandes Guerreiro, a música brasileira fincava os pés em Portugal. Chico Buarque, Maria Bethânia, Gal Costa, Caetano Veloso, Alcione e Fafá de Belém esgotavam concertos e, num mercado discográfico português de poucas vendas em geral, eram os brasileiros mais desembaraçados. A Festa do Avante!, do Partido Comunista Português, era um oásis para os “dissidentes” da MPB. Foi lá, em 1980 que Buarque encontrou mais de 100 mil indivíduos, a sua maior plateia de sempre: um concerto emblemático desse intercâmbio brasileiro que só se viria a fortalecer.

Quem foi o maior agente nessa troca? Basta perguntar às famílias portuguesas, que bem a conhecem: a telenovela. O paciente zero é Gabriela, Cravo e Canela, emitida em 1977, um fenómeno que uniu as massas portuguesas. Nas suas casas, em cafés ou associações de bairro, a telenovela brasileira fez-se ritual, um universo de fácil identificação – pela língua e pelos temas da vida moderna –, com poder até de influenciar até o discurso político. E acumulou igualmente o papel de veículo para a música brasileira, ao aumentar a procura por concertos de (mais) músicos brasileiros, incluindo Gilberto Gil e Milton Nascimento.

Na transição para os anos 80, a emissão de telenovelas como A Escrava Isaura ou O Astro, na RTP1, já é acompanhada da edição das respectivas bandas sonoras em vinil. As novelas brasileiras monopolizavam não só as audiências, mas também as vendas de música. Roque Santeiro (1987) ou Tieta (1990), beneficiando já do advento da cassete, trazem nomes consagrados como Gal Costa ou Fagner novamente à berlinda.

Chico Buarque na Festa do Avante, em 1980, perante a sua maior plateia de sempre. Fotografia: AbrilAbril

Mas o ganha-pão da música brasileira não está apenas em artistas consagrados. Em 1996, a SIC repõe a telenovela Renascer, levando o público a conhecer a artista Daniela Mercury, que no Brasil já explodira com o CD O Canto e a Cidade. No mesmo ano, a novela O Rei do Gado incorpora “À Primeira Vista”, canção do seu álbum mais recente. ‘Vender como pãezinhos quentes’ é uma expressão modesta: ao vender mais de 270 mil cópias, Feijão com Arroz tornou-se o álbum mais vendido de sempre em Portugal – título que, de acordo com a Agência Lusa, mantinha ainda em 2014.

Pedro Zambujo foi uma de muitas crianças portuguesas que cresceu com essa banda sonora. O jornalista de 31 anos recorda a sua cidade natal de Figueira da Foz, nos anos 90, como “um mini Rio de Janeiro” durante o Carnaval – e um megafone para canções como “Rapunzel” ou “Nobre Vagabundo”. “Há aquele cliché da ‘canção de Verão’, mas o Feijão com Arroz eram várias. E não são canções de Verão que desaparecem”, diz.

Pedro Zambujo, jornalista da RTP. Fotografia: Pedro Zambujo

A voz reconstrói as viagens de carro com a família, até às férias no Algarve ou no Alentejo, com o CD de Mercury no auto-rádio. Contudo, Zambujo guarda uma memória ainda mais viva do disco, que brilhava aos sábados de manhã – em dia de limpezas. “A minha mãe [punha] o disco ao final da manhã e eu [estava] com ela a ouvir o ‘Minas com Bahia’”. Anos mais tarde, alojado em Lisboa, a colega com quem se preparava para limpar os cantos à casa premiu um botão e conduziu-o à mesma paisagem sonora de outrora. “Ela fez exatamente a mesma coisa [que a minha mãe], num sábado de manhã. Aí é que percebemos que aquilo tinha tocado a muita gente da mesma maneira. Nós tínhamos a mesma referência para [a canção]: estares de fato de treino, a abrir as janelas, para limpares a casa.”

Com Mercury, a música brasileira transcendeu as classes, de uma forma que Buarque e Veloso não conseguiram. Invadiu as discotecas, fez-se capa de revista e esgotou um Pavilhão Atlântico – onde, dias antes, Bob Dylan, só vendeu um terço dos bilhetes (“Eu prefiro a Daniela ao Bob Dylan”, contava um empregado de uma loja de discos à Folha de São Paulo). Na década de 90, a música brasileira – também com os contributos dos Canta Bahia ou dos Mamonas Assassinas – regista um crescimento total de 75% no mercado português. Numa pesquisa da Associação Fonográfica Portuguesa, Mercury só perdia para o jogador de futebol Ronaldinho como a primeira celebridade brasileira que vinha à cabeça dos entrevistados. 

Seguindo nas pisadas da artista, nos anos 2000, também Adriana Calcanhotto, Ivete Sangalo ou Marisa Monte começaram em Portugal uma rota internacional para as suas carreiras. Monte, em particular, atingiu a ribalta com o trio Tribalistas (com Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown) – que, em 2018, se reuniu e fez um concerto no Pavilhão Atlântico. Já Sangalo continuou o legado de Mercury como figura de proa do axé.

Mas foi no Feijão com Arroz que o Brasil encontrou a sustança para continuar a fincar o pé em Portugal. Para prolongar a familiaridade trazida pela bossa nova e pela MPB, mas também para um futuro explosivo.

Acha que sabe tudo sobre a música brasileira em Portugal nos anos 1990 e 2000?

Agora, escolha o próximo capítulo da sua viagem pela música brasileira em Portugal.

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