Alecrim e vassourinha: bossa nova

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Sorria: você escolheu escutar bossa nova. Prepare-se para entender como a música brasileira chega em Portugal de mansinho, conquistando espaço nota por nota.

Para quem não sabe, nem nunca tocou um “Samba de uma Nota Só”, a bossa nova é o estilo musical que se desenvolveu no Brasil a partir de 1958. Em algum lugar entre o jazz e o samba tradicional, as vozes dessa nova estética — entre elas Vinicius de Moraes, Nara Leão, Tom Jobim e João Gilberto — dialogavam com o instrumento musical como quem fala de igual para igual, dispensando a ostentação.

O som levou o imaginário das areias do Rio de Janeiro e dos contornos do Corcovado para o mundo todo. A música “Garota de Ipanema”, de Vinícius de Moraes e Tom Jobim, foi lançada despretensiosamente ao público de uma boate em Copacabana. Hoje, segundo a editora do grupo Universal, é a segunda canção mais tocada da História, só perdendo para “Yesterday”, dos Beatles. Existem versões em inglês, finlandês e estoniano. Contudo, não foi preciso qualquer tipo de tradução para que ela chegasse a Portugal.

Nos anos 50, houve uma intensificação na presença da música brasileira em terras portuguesas, mas a coisa realmente ganhou dimensão na década seguinte. Ainda que o salazarismo limitasse o conteúdo cultural que circulava no país, as acções de censura não foram capazes de deter a boa onda da Bossa Nova. Até hoje, fadistas como Camané e Carminho emprestam seu sotaque português ao ritmo latino-americano, enrolando os erres e engolindo as vogais para dar sua própria bossa à coisa.

As portas abertas timidamente para a Bossa Nova depois deixam entrar Chico Buarque, Caetano Veloso, Os Mutantes, Gilberto Gil e outros nomes da Música Popular Brasileira (MPB). Essas novas canções já chegam com uma pegada mais política, revolucionária. Elas expressavam o desejo de liberdade dos brasileiros durante os Anos de Chumbo da Ditadura Militar, que se concretizou no 25 de Abril português. As léguas que separam os dois territórios não afastaram dois povos falantes da mesma língua, que cantam e lutam juntos, ainda hoje, pela democracia.

Com essa invasão de poesias e ritmos vindos do Brasil, a Bossa Nova chegou aos ouvidos de uma miúda de 10 anos, no interior do país. Carolina Alves, estudante de Ciências da Comunicação da NOVA FCSH, conta que sua relação com o ritmo deriva da vida familiar, dos jantares em casa, mas sobretudo, do restaurante que a família tinha em Santarém. O espaço, para além de restaurante, recebia concertos, exposições de arte e workshops, funcionando como centro cultural. “Eu passava lá muito tempo quando tinha cerca de 10 ou 11 anos. Saía da escola e ia para lá, passava tardes e tardes e a música era sempre Bossa Nova”, conta Carolina.

Carolina Alves, estudante da NOVA FCSH. Fotografia: Carolina Alves

As vozes desse estilo musical marcaram a vida da portuguesa, que associa a Bossa Nova a um sentimento de nostalgia muito claro. “Sempre que ouço certas músicas, a “Águas de Março” por exemplo, eu viajo completamente para aquele espaço, aquele cheiro, aquela memória da minha infância”, relata a estudante. Vinda de uma família de curiosos e apaixonados por música, seus avós já tinham uma coleção de vinis de MPB muito antes dela nascer. Outra influência foi sua tia que, aos 18 anos, viajou ao Brasil e trouxe de volta uma adoração pela cultura brasileira e “imensos biquinis”.

Apesar do incentivo familiar, a paixão de Carolina pelo ritmo nem sempre foi partilhada pelo mundo ao seu redor. “Santarém é uma cidade muito tradicional nos costumes e isso reflete-se também na música, a maior parte dos pais da minha geração cá em Santarém ouvem fado, no máximo uma ou outra música portuguesa mais rock”, relata. A música brasileira, segundo ela, acaba por ser vista como algo mais “alternativo” na cidade, já que as pessoas “fecham-se muito nas suas próprias tradições e naquilo que já conhecem”. 

A estudante ainda não teve a oportunidade de viajar para o Brasil e estar lá de corpo, ainda que visite o país de alma toda vez que escuta Elis Regina cantar. “Parece que não é preciso viveres o que está descrito na música, só sentires”, diz Carolina. Além de “Águas de Março”, outra música que parece sempre fazer sentido para ela é “Desafinado”. “Talvez por ser desafinada”, brinca. A Bossa Nova transporta Carolina para praias onde nunca esteve e para uma infância que já passou. A música, na sua opinião é uma forma de “comunicar e transmitir cultura” e, nesse caso, parece que a missão foi cumprida. 

E você? O quanto sabe de bossa nova? Teste no quiz abaixo:

Agora, escolha o próximo capítulo da sua viagem pela música brasileira em Portugal.

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