A Nova Sociedade: Tudo o que a COVID-19 mudou pela voz dos profissionais

Por Beatriz do Ó, Diogo Paredes, João Mavinga, Matilde Carvalho e Nuno Alvarenga

Ao longo do ano de 2020, o mundo inteiro tem enfrentado um dos maiores problemas dos últimos 100 anos, o novo coronavírus. Sendo inclusive comparado por vezes a eventos como as grandes guerras mundiais ou à gripe espanhola do início do século XX. O seu impacto fez-se sentir, não apenas no número elevado de mortes, que já ultrapassou as 400 mil, mas também a nível económico, na alteração dos regimes laborais dos profissionais da nossa sociedade, de um modo direto ou indireto.

As alterações fizeram-se sentir na vida de diversos profissionais dos mais variados setores, nomeadamente em áreas como o comércio, cultura, desporto, educação, saúde e segurança.

Com a implementação de um regime de Estado de Emergência, ficam suspensos alguns direitos, ao nível dos trabalhadores e empresas, com a exclusiva finalidade de adotar as medidas necessárias para a proteção da saúde pública, no contexto da pandemia COVID-19. 

Mais do que abordar números ou áreas profissionais, a realidade dos trabalhadores face ao novo vírus tem impacto profissional diferente consoante a sua profissão, área e localização, para além de outros fatores externos que fogem ao seu controlo.


Comércio

Esta categoria engloba diversas áreas, como a restauração e o mercado de abastecimentos. É possível fazer uma distinção entre as pequenas e as grandes superfícies comerciais: as superfícies maiores acabaram por manter o funcionamento normal dos seus estabelecimentos, na generalidade dos casos, através da adoção de regras específicas para combater o coronavírus; no caso dos pequenos comerciantes, a pandemia que se vive nos dias de hoje poderá tornar-se um risco no que toca ao encerramento destes estabelecimentos. Existem, contudo, certas empresas que estão a apresentar maiores receitas atualmente, comparativamente, ao período homólogo do ano anterior. Este é o caso do mercado de transporte de comida ou mercadorias.

Cíntia Silva – “Contacto com o público é sempre complicado, mas as pessoas acabam por cumprir e são flexíveis

Para além de estudante de Publicidade e Marketing, na Escola Superior de Comunicação Social, Cíntia Silva é operadora de caixa num hipermercado Continente, em tempo parcial. Quando o número de casos de infetados de coronavírus começou a aumentar em Portugal, certas lojas demoraram a adaptar-se às circunstâncias, o que deixou esta jovem funcionária insegura, optando por tirar férias enquanto os hipermercados não adotavam medidas de proteção que considerasse adequadas.

Cíntia regressou ao trabalho à medida que muitas alterações começaram a ser implementadas no dia a dia das grandes superfícies comerciais. Limite máximo de clientes na loja, acrílicos nas caixas de pagamento, plástico no terminal de multibanco, desinfetante à entrada e saída, vias próprias para entrar e sair da loja, fitas divisoras que delimitam espaços, avisos para os clientes não remexerem na fruta e somente tocarem na que querem levar são exemplos de mudanças que surgiram em tempos de COVID-19, para proteger clientes e funcionários.

No entanto, estas medidas não são sempre respeitadas pelos clientes, nomeadamente as distâncias de segurança. Esta estudante refere que o Continente é muito rígido nessas medidas, “só depois do cliente que está a ser a atendido no momento ir embora é que o cliente seguinte pode avançar”. Os funcionários têm que alertar quando os clientes não respeitam as regras.

“Tive que me adaptar e ao início não foi fácil” afirma a colaboradora da Sonae. O uso a tempo inteiro da máscara foi algo que lhe custou bastante, uma vez que lidar com o público exige que se fale com os clientes: “é muito mais complicado trabalhar com máscara se tiver que estar a falar as oito horas de trabalho”.

Embora tenha consciência dos riscos, não consegue ficar indiferente quando reconhece que alguma pessoa precisa de ajuda, “não sou daquelas que não ajuda porque tem medo de se aproximar do cliente”, confessa Cíntia. No entanto, mantém-se positiva em relação ao futuro: “é mais uma coisa que temos que nos adaptar e dar o nosso melhor, porque isto vai passar e eventualmente tudo vai ficar bem”.

Renato Santos – “Não esperávamos mais do que 10 clientes por noite e é o que está a acontecer”

Renato Santos, natural do Rio de Janeiro, chegou a Portugal há quatro anos. Trabalha no ramo empresarial como consultor de negócios e está, atualmente, à frente do bar Boteco da Dri, no Cais do Sodré, em Lisboa.

O governo decretou o fecho de todos os estabelecimentos não essenciais, obrigando ao fecho do seu espaço, que teve como consequência a declaração de layoff.  Mesmo com o espaço fechado, o trabalho não parou. Paralelamente a planear a reabertura e a negociar com fornecedores, continua envolvido noutros projetos. Considera que teve uma experiência de negociação positiva, pois no geral, houve e está a haver, compreensão face à situação. Quanto a rendas, Renato diz que o seu senhorio é o Porto de Lisboa que congelou a necessidade de pagamento.

Com a reabertura planeada para 18 de maio, o empresário procedeu à implementação das medidas proferidas pela DGS na adaptação à nova realidade. Os seus planos consistem numa esplanada no exterior do bar, com distanciamento entre mesas de 2 metros, distribuição de máscaras pelos seus colaboradores e iniciação de normas de higienização, como a lavagem das mãos e limpeza constante dos espaços, mobiliário e dos produtos que chegam ao Boteco.

“Não esperávamos mais do que 10 clientes por noite e é o que está a acontecer”. Contudo, Renato vê-se otimista no meio de tanta incerteza e acredita que, passada a emergência sanitária, os negócios irão recuperar.

João Silva – “Fechámos o restaurante, sem fazer entregas para fora, e a reabertura dependerá da melhoria da situação e das normas do Governo”

João Silva tem 19 anos e vive em Viseu, cidade onde trabalha como empregado de mesa. Deixou de trabalhar no dia 15 de março.

Salienta que o seu restaurante optou por fechar completamente as portas através do regime de layoff, uma vez que o estabelecimento não teria condições para funcionar apenas com pedidos take-away. Segundo João Silva, um modo de colmatar o prejuízo em consequência deste período de paragem será a aposta nos espaços com esplanada, que permitirão uma maior rentabilidade dos estabelecimentos de restauração, ao mesmo tempo que poderão dar uma maior sensação de segurança às pessoas que deles usufruem.

Na restauração, regime de horário laboral e as condições de segurança no trabalho são muitas vezes decisões exclusivas dos proprietários destes estabelecimentos, embora sempre através de um guia geral aprovada pelo Governo. Assim, existe uma maior heterogeneidade quanto às adaptações levadas a cabo pelos diversos espaços. Alguns restaurantes focaram as suas vendas em vender apenas em regime take-away ou ainda através de entregas diretamente ao domicílio.

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Cultura

A indústria cinematográfica, do humor ou a música foram bastante valorizados neste período de quarentena. No entanto, a cultura é uma das áreas onde os profissionais se encontram mais fragilizados a nível socioeconómico perante o coronavírus. Muitos dos profissionais desta área estarem dependentes da bilheteira é um facto de agudização das dificuldades que estão a passar atualmente. 

Além dos atores, músicos e humoristas, é importante referir que existe toda uma equipa por detrás dos artistas para operacionalizar os eventos culturais.

Pedro Luzindro – “A cultura não é vista como um bem essencial por maior parte da população e os governos são um reflexo da população que têm”

Nos últimos meses, vários eventos culturais têm sido encerrados ou suspendidos. O Governo recomendou a suspensão de eventos em espaços fechados com mais de mil pessoas e em espaços abertos com mais de cinco mil. O cancelamento destes eventos afetou não apenas os artistas, mas toda a equipa de produção, a equipa técnica, a administração, que trabalham no setor da cultura para que estes eventos se concretizem.

Pedro Luzindro é ator e professor de teatro e viu os seus espetáculos e eventos a serem cancelados ou adiados e revela o seu descontentamento com a falta de apoio às artes: “Maior parte dos artistas sentem-se abandonados pelas instituições governamentais que se apressam a ajudar este ou aquele e a cultura não”.

Um coletivo de 14 estruturas formais e informais representativas do tecido cultural e artístico do país lançou um apelo à criação efetiva de uma estratégia para o sector, que inclui medidas de proteção social dos trabalhadores e a disponibilização de um “fundo de apoio de emergência com valores dignos e adequados à dimensão e ao impacto” da crise provocada pela pandemia da COVID-19.

Pedro Luzindro defende que o novo coronavírus provocou uma “destruturação financeira da maior parte das instituições fossem elas grandes ou pequenas.” No entanto, a COVID-19 tornou mais evidente um problema que já existia. “A falta de apoio às artes sempre existiu. Esta situação veio apenas por a nu uma coisa que já existia.”

A reivindicação criada no mês de abril está expressa no Manifesto Unidos pelo Presente e Futuro da Cultura em Portugal, que tem como objetivo promover “a Cultura e a Arte como vetores estruturais para o desenvolvimento de toda a sociedade civil portuguesa”.

Apesar das adversidades da cultura, este tempo de confinamento obrigou a uma adaptação das artes face às circunstâncias atípicas que se enfrentam o que foi possível com um estímulo da criativadade dos vários ramos da cultura. Pequenos concertos, peças de teatro e inaugurações de exposições são alguns dos eventos que estão a ser preparados para os próximas semanas, sem público e com transmissão em direto pela Internet, de forma a respeitar as normas de segurança da nova realidade social.

Pedro Luzindro começou a dar aulas online aos seus alunos de teatro musical e passou os seus espetáculos de improvisação e stand-up para o mundo digital: “O meu grupo de improvisação passou a fazer dois espetáculos por semana em lives de Instagram o que está a ser muito interessante.”

Filipe Salgueiro- “O núcleo cultural de atores e produtores desta área poderia unir-se mais para regulamentar um pouco a sua atividade”

Filipe Salgueiro tem 35 anos e é ator e diretor de atores. Com as suspensões das atividades em estúdio e das produções de teatro, surgiu a necessidade de se adaptar.

A passagem para teletrabalho exigiu que houvesse uma restruturação: “as equipas que estavam em produções televisivas e de teatro passaram a ter ensaios online” e o trabalho de pré-produção também começou a ser feito a partir de casa.

Filipe refere a importância do online nesta adaptação: “tornou-se uma ferramenta essencial” para estes profissionais se manterem em contacto e ser possível desenvolverem algum trabalho. Este diretor de atores confessa que tem esperança que o trabalho não deixe de existir, quando a situação pandémica em Portugal melhorar. Filipe Salgueiro vê este período como “uma boa altura para definir novas soluções criativas nesta área”.

A situação precária na área do teatro é conhecida por muitos. Filipe incentiva à união para alcançarem melhorias nesta área: “[as artes] poderiam unir-se mais para regulamentar um pouco mais a atividade em termos de cachet, serviços e jogos bases”.

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Desporto

Dentro do período de confinamento, o coronavírus obrigou ao término antecipado da maioria das competições oficiais das mais diversas modalidades. Isto implicou a reestruturação do trabalho de treinadores, personal trainers, árbitros e atletas dos vários desportos. A retoma de competições como a Primeira Liga de futebol está a ser encaminhada com medidas de prevenção, nomeadamente a proibição de público presente nos estádios e os testes feitos aos jogadores.

Lara Nascimento – “O presidente da Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol deixou de receber o seu ordenado para ajudar os árbitros que necessitavam deste meio de sustento e que se encontravam em situações críticas de fome”

Lara Nascimento tem 19 anos e é árbitra pela Associação de Futebol de Viseu há 4 anos. Estudante de Serviço Social na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, desde sempre foi apaixonada pela modalidade e viu na arbitragem uma maneira de dar o seu contributo ao futebol, assim como um modo de conseguir ganhar algum dinheiro que a ajudasse na gestão das suas despesas pessoais.

A jovem árbitra explica que muitos árbitros tinham nesta profissão o seu ordenado principal ou um meio de sustento secundário. Segundo a mesma, um caso que esclarece as dificuldades sentidas pelos árbitros de futebol é o do “presidente da Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol, que deixou de receber o seu ordenado para ajudar os árbitros que necessitavam deste meio de sustento e que se encontravam em situações críticas de fome”.

Quanto ao retomar dos jogos de futebol, Lara acredita que, numa primeira fase, estas partidas deverão ser realizadas sem adeptos, mas “numa segunda fase de desconfinamento poder-se-ia limitar os estádios que são enormes e que podem ter condições, de acordo com as normas atuais, de ter adeptos fisicamente presentes”.

Para a jovem juíza de futebol, a abertura dos jogos de maior dimensão ao público deveria acontecer, pois esta modalidade “é considerada o desporto rei em Portugal, uma vez que é um jogo com muitas emoções, pelo que os adeptos vibram muito com tudo o que está a acontecer.

Rafael Amaral- “Deram-nos planos de treinos e alimentação e cabe ao atleta segui-los à risca, em casa””

Rafael Amaral é um atleta de artes marciais desde os 4 anos de idade. É natural de Viseu e é Campeão Mundial de Kempo Chinês. Além disso, Rafael estuda Secretariado e Comunicação Empresarial na Universidade de Aveiro, a mesma instituição onde leciona, de um modo extracurricular, artes marciais.

Com o deflagrar da pandemia, que atualmente assola a humanidade, Rafael Amaral teve de se adaptar a uma realidade que impediu o contacto físico que é fulcral nas artes marciais. Deste modo, os treinos que o atleta facultava assim como os seus próprios treinos individuais tiveram de passar a ser feitos, na sua totalidade, em casa. Como Rafael, muitos praticantes de desporto federado tiveram de passar por um processo de adaptação aos “treinos caseiros”. O cumprimento das dietas prescritas a cada atleta também teve de se tornar da responsabilidade exclusiva do mesmo.

Além desta questão, Rafael, à semelhança de muitos atletas-estudantes, tem ainda de se debater com a vertente académica. O habituar a uma nova rotina assume aqui duas vertentes, uma vez que Rafael necessitou de enquadrar, além dos treinos, a gestão do ensino à distância, com todos os projetos, estudo e exames que a faculdade exige.

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Educação

Segundo o jornal Expresso, “são mais de dois milhões as crianças e jovens matriculados nalguma instituição de ensino”, em Portugal. Assim medidas que se relacionem diretamente com os profissionais da vertente da educação, têm consequências para os estudantes e respetivos encarregados. Além disso, medidas excecionais de combate à COVID-19 podem implicar uma reestruturação no modelo de ensino e nos parâmetros de admissão dos estudantes. É, deste modo que, plataformas como a telescola, escola virtual e Zoom se tornam realidade para certas famílias portuguesas. As questões giram agora em torno de tópicos como o modelo das avaliações, o regresso faseado ou total ao ensino presencial e o impacto que esta nova realidade teve nos profissionais como professores, educadores de infância e auxiliares de ação educativa.

Carlota Louceiro – “A educação é um direito de qualquer criança e não se pode parar”

Carlota Louceiro tem 24 anos e é educadora de infância no Park International School, no Restelo. Conta-nos que o colégio onde trabalha, antes da situação piorar, tomou de imediato medidas de prevenção.

“Entre quarta-feira ao final da tarde e sexta-feira montámos uma escola virtual, que fosse entrar em vigor o mais cedo possível”, Carlota e os seus colegas montaram esta escola online face à possibilidade das escolas fecharem. Inicialmente gravavam atividades, que posteriormente eram partilhadas online para as crianças poderem aceder, seguindo sempre as áreas de conteúdo referidas nas Orientações Curriculares para a Educação Pré-Escolar.

No entanto, mais tarde, Carlota e as restantes educadoras começaram a reunir com os seus alunos em livestreaming: “As famílias gostam muito e as crianças também de verem os amigos e de nos verem, tal como nós a eles”. 

Os pais são importantes atores neste processo do ensino à distância, uma vez que ajudam na realização das atividades propostas e fazem chegar todo o planeamento e execução da mesma às educadoras. Carlota reconhece que esse trabalho em equipa “torna o momento bastante enriquecedor”.

Esta jovem educadora reforça a importância da manutenção da rotina, mesmo em tempo de confinamento. Apesar da distância, Carlota continua os hábitos que tinha com a sua turma, mas desta vez têm um elemento adicional, os pais, que promovem o estabelecimento destes costumes.

Apesar desta adaptação bem sucedida da passagem da escola para casa, houve dificuldades que se levantaram, principalmente no que toca à avaliação. Carlota confessa que “é muito complicado fazer uma avaliação como a que se conhece”. Este obstáculo surgiu devido à impossibilidade de acompanhamento por parte das educadoras na realização dos desafios propostos, obtendo somente o produto deste.

A educadora refere que, mesmo com esta nova realidade, é importante que haja conteúdos e forma destes chegarem às crianças, pois “a educação é um direito de qualquer criança e não se pode parar”. No entanto, também reconhece a importância da escola, “nada nem ninguém substitui a estrutura, o ambiente social que se vive na escola e tudo o que esta proporciona”.

Maria da Conceição de Alvarenga – “As primeiras duas semanas foram um bocado confusas”

Maria da Conceição de Alvarenga é professora de inglês no Centro de Estudos de Fátima e leciona alunos do ensino profissional. O dia 13 de março foi o último dia de aulas presenciais e houve uma necessidade de planear a continuação do ensino no Centro de Estudos de Fátima. 

O ensino em Portugal mantém-se através das plataformas digitais. Os professores tiveram palestras para aprenderem a trabalhar com as ferramentas digitais. Maria da Conceição preferiu uma estratégia de eficiência, “escolhi investir em três: o Zoom para as aulas síncronas, a Escola Virtual da Porto Editora e o Dossier Digital (plataforma interna da escola) que já era utilizado pela escola”.

Considera que, no geral, apesar do fim das aulas presenciais e da passagem ao online, tudo corre como dantes. Segundo a professora, os seus alunos gostam de aparecer e participar nas aulas pelo Zoom, “coisa que antes não faziam nas aulas presenciais”. Aos alunos do ensino profissional do Centro Estudos de Fátima que não tinham computador, a escola providenciou um para cada estudante.

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Saúde

A saúde tem um papel fundamental no combate à pandemia. Médicos, enfermeiros e auxiliares de saúde estiveram na linha da frente desde que o coronavírus chegou a Portugal. A multiplicação de turnos que os profissionais desta área desempenharam e o impedimento dos mesmos poderem contactar com familiares pertencentes ao grupo de risco são dois exemplos dos esforços que estes tiveram que fazer. Estas pessoas ganharam o estatuto de “heróis da linha da frente de combate ao Coronavírus”.

Marta Salgueiro – “Depois de um dia de trabalho, eu ia entregar medicamentos a casa de algumas pessoas, algumas delas que não tinham mais ninguém a quem recorrer para ir buscar medicamentos”

Marta Salgueiro Baço é dona da Farmácia do Forte da Casa desde 2004 e da Farmácia Central em Vila Franca de Xira desde 2019.

Com o surgimento do novo coronavírus, as farmácias tornaram-se num sítio vulnerável à propagação do vírus. Treze farmácias foram obrigadas a fechar durante um período devido a casos positivos de COVID-19. “Éramos dos poucos estabelecimentos que estavam abertos e as pessoas correram às farmácias com medo que os medicamentos faltassem.”, explica Marta Salgueiro Baço.

As farmácias de Marta Salgueiro fecharam durante três semanas e passaram a atender pelo postigo porque não tinham equipamento de proteção suficiente. “No início houve uma grande afluência de gente. Uma grande quantidade de trabalho suplementar”, explica a farmacêutica. A Direção-Geral da Saúde (DGS) e o Infarmed emitiram uma série de orientações para as farmácias comunitárias no âmbito da infeção pelo novo coronavírus para proteger os seus funcionários e utentes e contribuir para impedir a propagação da doença. Segundo o documento, publicado no site das duas entidades, as farmácias devem ter o seu próprio plano de contingência e procedimentos próprios perante a COVID-19.

Marta Salgueiro explica que toda a logística da farmácia mudou para garantir a segurança dos funcionários e dos clientes. A desinfeção de todos os medicamentos e encomendas, a distância de segurança entre os clientes e funcionários, a divisão dos trabalhadores por turnos foram algumas das medidas aplicadas na farmácia.

Segundo uma norma da DGS, todos os técnicos que fazem atendimento ao público nas farmácias devem receber formação apropriada, para estarem capacitados a informar adequadamente os utentes e esclarecer as suas dúvidas sobre a COVID-19.

Joana Alvarenga – “Atendeu todos por igual, sem discriminação, e garantiu os testes gratuitos. O mesmo não se passa noutros países”

Joana Alvarenga é médica, na especialidade de medicina interna, no Hospital Egas Moniz, em Lisboa. Mas não está a lidar com os doentes infetados, uma vez que o hospital onde trabalha não recebe doentes infetados.

Acompanhou o desenvolver deste problema de saúde pública desde que surgiram na China os primeiros relatos. Muita informação é partilhada em grupos de profissionais de saúde nas redes sociais, onde os colegas estrangeiros relatavam a situação nos seus países. Embora surgissem vários artigos científicos sobre o novo coronavírus, o desconhecimento sobre este e o acelerar da situação pelo mundo fora impedia os profissionais de saúde de terem uma resposta concreta sobre a doença. Inicialmente “tive medo” diz a médica, “a situação se chegasse a Portugal e se não fossem tomadas medidas, iria descontrolar-se rapidamente”.

Certos doentes internados no Egas Moniz testaram positivo ao coronavírus. Desta forma, houve a urgência de testar todos os doentes e profissionais. Joana reconhece que foi um susto generalizado, mas a situação foi controlada.

A DGS implementou medidas muito restritas de acesso e de circulação nos hospitais: as visitas foram proibidas, consultas não urgentes adiadas e alguns serviços fechados temporariamente. Devido à suspensão de consultas, muitos doentes contactaram informalmente por telefone os profissionais de saúde para pedir conselhos e receitas médicas.

A médica refere que “não somos um país rico e que muito tem de ser feito pelo Sistema Nacional de Saúde”, pois “atendeu todos por igual, sem discriminação, e garantiu os testes gratuitos. O mesmo não se passa noutros países”.

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Segurança

A segurança teve um importante papel neste período, no controlo do país e na resposta às mais variadas ocorrências. Polícias, militares, bombeiros, seguranças de estabelecimentos e elementos da proteção civil tiveram muitas vezes turnos prolongados devido à nova situação de pandemia.

Em situações de emergência, são estas as pessoas que garantem a segurança no nosso país, muitas vezes acabando por ser um grupo com elevada exposição aos mais variados riscos.

Carlos Antunes  – “Trabalhámos sempre e nunca ficámos em casa”

Carlos Antunes tem 50 anos e pertence a uma das Brigadas de Sapadores Florestais da Comunidade Intermunicipal da Região de Coimbra. Nas horas vagas, é bombeiro voluntário na Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Coimbra.

Durante esta pandemia, nunca colocou as suas farda e botas de sapador florestal no armário. Em conjunto com os seus 14 colegas de profissão, continuaram a realizar as mesmas atividades. “Usar máscaras e luvas sempre e ao final do dia desinfetava-se a carrinha, bancos e portas com gel desinfetante”, explica Carlos que são algumas das medidas adotadas, tal como a limitação de três pessoas por carrinha.

A partilha do mesmo espaço e o convívio durante a hora de almoço também foram afetados, o conimbricense refere que “antes da pandemia, almoçávamos todos em grupo, mas posteriormente começámos a almoçar separados, com a distância de segurança aconselhada”.

Enquanto bombeiro voluntário, a sua ajuda ficou também suspensa, uma vez que foi imposta a limitação de pessoas no quartel: “começou a trabalhar uma equipa fixa sete dias por semana, 24 horas por dia e os restantes não podiam entrar”. A logística adotada consistia na substituição semanal da equipa em atividade, ficando esta posteriormente “15 dias em casa de descanso, para que, caso apanhassem o vírus, fosse detetado”.

Hermen Diogo- “Tem sido bastante cansativo lidar com pessoas que não obedecem às normas impostas pelas entidades competente”

Hermen Diogo tem 27 anos e trabalha há um mês como segurança da empresa “PM Segurança” no Centro Comercial Babilónia, na Amadora. Foi apanhado de surpresa com a propagação rápida do coronavírus que se alastrou por todo o mundo. Inicialmente, afirma que se sentia receoso, uma vez que o seu trabalho envolve contacto com o público.

O despedimento de muitas pessoas foi uma das consequências da COVID-19 e Hermen é um desses casos. Antes da situação pandémica se alastrar, trabalhava como segurança nas “Securitas”, mas esta empresa, como muitas outras, viu-se obrigada a despedir parte dos seus colaboradores. Deparado com esta situação, Hermen procurou um novo emprego e surgiu esta oportunidade de trabalhar no Centro Comercial Babilónia.

Várias medidas contempladas no protocolo da Associação Portuguesa de Centros Comerciais foram estipuladas para que se devolva a confiança e potencie o regresso aos centros comerciais como espaços seguros. No estabelecimento comercial onde Hermen Diogo trabalha, “a entrada principal passou a ser feita do lado oposto do centro e a contagem dos clientes à entrada” são algumas das medidas impostas pelo Centro Comercial da Babilónia.

Fernando Flor- “A GNR teve um aumento do grau de exigência junto da população e um papel mais preventivo e educativo na sociedade”

Fernando Flor é militar na Guarda Nacional Republicana e trabalha no Destacamento de Trânsito de Viseu. Com o advento do Coronavírus na nossa sociedade, Fernando, como todos os profissionais de segurança, teve de se adaptar a uma realidade diferente, repleta de novas regras que influenciam, entre várias questões, a mobilidade e os modos de convivência social.

Segundo Fernando, estas medidas implicaram que os guardas em geral tivessem um “aumento do grau de exigência junto da população e um papel mais preventivo e educativo na sociedade”. Na sua adaptação a esta situação, Fernando refere o distanciamento social, o uso de equipamento de proteção individual e a alteração dos horários, sendo que os turnos de patrulha passaram de oito para 12 horas.

Além da exigência redobrada no que diz respeito às jornadas de trabalho, os profissionais de segurança foram ainda indivíduos que, de um modo mais direto, se apresentaram como um grupo de risco pelo contacto permanente que estabelecem no quotidiano com os indivíduos.

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