A Cada Passo

Por Beatriz Barbosa, Bruna Ferreira, Diana Nóbrega, Joana Ribeiro e Margarida Martins

Laura tentou ingressar três vezes no Conservatório Nacional. Encontrou o seu lugar na Escola Superior de Dança, onde explorou a dança contemporânea. Foi recompensada pela sua persistência. Vanda dedicou o seu percurso profissional ao ensino desta arte. A sua paixão. Sara foi contra as probabilidades do meio onde cresceu para perseguir o seu sonho. Joana teve o seu caminho marcado pela mudança. Porém, a dança nunca deixou a sua vida. Francisco coloca o seu foco em crescer enquanto bailarino, em Portugal ou qualquer outro palco do mundo. Esta é a história da dança. Vive nas e das experiências de cada pessoa que agora vão ser dadas a conhecer.

Vamos agora dar cor às suas histórias.

SE COMPARARMOS “A QUANTIDADE DE GENTE QUE EXISTE NUMA CIDADE E A QUANTIDADE DE GENTE QUE VEM VER ESPETÁCULOS, TALVEZ NESSES MOMENTOS NÃO ME SINTA ASSIM TÃO VALORIZADO”.

Esta reflexão de Francisco espelha claramente o estado atual desta arte, com o qual os nossos entrevistados se defrontam, todos o dias. O bailarino confessa que a dança se trata de uma exploração constante, das capacidades físicas e psicológicas. E, apesar da valorização por parte dos colegas, não sente o mesmo do público, na sua generalidade. Questionado acerca das razões para tal, aponta para a falta da cultura da dança, “cá em Portugal não existe tanto a cultura de ir ver espetáculos, teatro, dança. As pessoas não conhecem muito o que Portugal tem para oferecer”. A perspetiva de Sara, que se encontra ligada às danças urbanas, também segue a mesma linha de pensamento, reforçando o papel da mentalidade portuguesa no que concerne ao apoio dado à profissão.

Como resolver este problema? Francisco não concebe uma solução para algo tão profundo como hábitos culturais, sugerindo a publicidade, como meio de divulgação dos espetáculos. No entanto, relativamente a esta sugestão, Vanda, diretora da Escola Superior de Dança de Lisboa, afirma que essa via poderá ser pensada, mas que é sempre obstaculizada pelos baixos orçamentos das escolas e companhias de dança.

De acordo com a agência Lusa, “o orçamento atual na área da Cultura situa-se na casa dos 0,2 por cento do total da despesa do Orçamento do Estado, (…) um valor consolidado global de 216,7 milhões de euros”. Perante este cenário, “representantes dos artistas continuam a exigir 1% do Orçamento do Estado para a Cultura, já em 2019, mas sem grandes expectativas de ver concretizada esta reivindicação antiga, para um setor em estado calamitoso”.

Laura, que ao cargo de coreógrafa da Lisbon Film Orchestra acumula o de professora e bailarina, acredita veementemente no poder da educação como motor para o desenvolvimento de uma maior sensibilidade para com a arte no nosso país.

Francisco: O Foco

São 8 da manhã. Francisco é chamado ao gabinete de um dos responsáveis do espetáculo que integra. Apesar de estar inserido no terceiro cast, pedem que suba ao palco na sessão dessa noite. O bailarino rejeita a proposta de imediato. É uma peça tecnicamente difícil e com tempos irregulares, portanto, um desafio impossível. Mas um amigo seu persuade-o a aceitar. A tarde é passada num estúdio, a repetir, e a repetir, e a repetir. Às 8 da noite, sobe ao palco e dança. Independentemente da preparação, dá o seu melhor. Ao som das últimas notas musicais, sente o seu dever cumprido. As palmas e os elogios dos que estavam na plateia enriquecem esta experiência. Daí considerá-la um dos melhores momentos da sua passagem por São Francisco, cidade que o recebeu durante três anos. Três dos melhores anos da sua vida.

Vanda: A Paixão

“Entrem, entrem”. Vanda abre a porta do seu gabinete, na Escola Superior de Dança de Lisboa, da qual é diretora fazem já (quase) seis anos. Relembra o tempo em que iniciou o seu percurso profissional. Em Angola, após a formação de base, com professores cubanos e russos, leciona as suas primeiras aulas, na escola que também a formou. Se foi por um acaso que começou a estudar dança, não é por acaso que essa se torna a sua paixão. Na verdade, mais do que dançar, “o que eu gostava efetivamente era de dar o que eu tinha e o que eu gostava da dança, e sabia, a outras pessoas”.  Afirma, com toda a certeza, que essa é a sua vocação. De passar o testemunho, que marca o ser professor. Esse “entendimento de missão” levou a que todas as suas decisões, ao longo do tempo, fossem tomadas “no sentido da dança”.

Sara: O Sonho

Na esplanada do mítico Martinho da Arcada, Sara viaja até à sua terra de origem, Barcelos. Um concelho extenso mas com um “pensamento de aldeia”. A jovem bailarina representa o talento que quer desabrochar, em vez de criar raízes. Apesar do apoio dos pais, não deixa de recordar a hesitação presente nos rostos de quem a viu crescer quando afirmou que queria ser artista. “E mais?” É esta a pergunta que a assombra e que quer contestar. Sabe que o terreno por onde está a enveredar é perigoso. E acabou mesmo por decidir assegurar um plano B, na área da gestão. “E mais?” Sentada neste café, agora em Lisboa, reflete acerca do equilíbrio subtil “entre o sonho e a realidade” que tantos encaram como sinónimo de conformação. Sara ousou desafiar a mentalidade de muitos acerca da importância e estabilidade do artista. Luta diariamente para continuar a trabalhar na área para a qual sabe ter sido feita. Mas, enquanto remexe as mãos pousadas em cima da mesa do café, não nega as dúvidas que por vezes surgem neste constante convencimento de que o sonho vale a pena. E mais? Sara sonha com o momento em que a dança poderá brilhar em toda a sua plenitude. Entre no sonho de Sara.

Joana: A Mudança

Sentada nas escadas do quinto piso da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, onde está a terminar a sua segunda licenciatura, Joana fala-nos da maior mudança da sua vida. Após formar-se em dança e integrar o elenco do Teatro Maria Vitória, optou por seguir o seu segundo plano. Em modo de desabafo, confessa que “a dança em Portugal, sinceramente, não dá futuro”. Por isso, “não me faz sentido investir no plano B numa idade mais avançada, sabendo que nunca vou viver do plano A”. De momento, o seu objetivo é acabar o seu curso, mas não deixa de ter o “bichinho” da dança e “se poder voltar a dançar farei por isso”.

Laura: A Persistência

Ao final do dia, o antigo palácio em Santa Apolónia acolhe os últimos raios de sol. Sentada de pernas cruzadas numa pequena cadeira, Laura está pronta para ser entrevistada, uns minutos antes de começar o ensaio para o seu mais recente espetáculo. Desculpa-se por se mexer muito e interferir com o microfone, mas confessa não conseguir ficar quieta. Talvez daí dizer que a sua vida parece uma “telenovela”, já que desempenha simultaneamente funções como bailarina, coreógrafa e professora. E inicia-se a entrevista. “Laura, como surge a dança na sua vida?” O que começou como um passatempo, numa altura complicada da sua infância, rapidamente tomou conta da sua vida, da sua mente e do seu corpo. Constatou que a dança era algo inalienável de si, ao se “aperceber do quão infeliz seria se não dançasse”. E desistir? É um pensamento que lhe surge inúmeras vezes, até porque descreve a vida de artista como um constante teste aos limites. Mas “aquela sensação bate cá dentro e o coração bate tão forte e tu queres fazer isto para sempre”. Aí, ela opta todas as vezes por continuar.


“Dançar dói, mas dói mais quando estou parada.”

Vanda, eterna apaixonada pelo ensino da dança, desenvolveu um artigo de reflexão sobre o corpo, nesta arte. O título que lhe atribuiu transparece bem a sua visão acerca da mesma. “Dançar dói, mas dói mais quando estou parada.” E é com estas palavras que terminamos a nossa tentativa de trazer um pouco deste mundo através de quem o vive todos os dias.

E QUANTO A SI? QUAL É A SUA RELAÇÃO COM A DANÇA?


Créditos:

Fotografias cedidas pelos bailarinos.

Composição musical (“Demétrio Apaixonado” e “Canção de Embalar” no vídeo “A DANÇA” [07:33s; 08:12s; 08:56s]) – Nuno Sá

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