A Aventura do Feijão

 Origens

 

 

Olá! Eu sou o feijão e vou contar-vos a minha história.

 

 

Há cerca de 111.000 anos, os meus antepassados viviam no estado selvagem na região Mesoamericana. Daí, parte deles migrou para a região Andina. Em ambos os locais acabaram por ser domesticados (tornaram-se civilizados), muito por acção dos humanos. E constituíram várias tribos, que se distinguiam pelo aspecto exterior, mas na essência éramos todos feijões.

Vejam como nós crescemos!

Os humanos, que gostam de contar histórias, tinham várias sobre a sua (e também sobre a nossa) origem. A mais importante está no Popol Vuh, (“Livro da Comunidade” ou “Livro do Povo”), uma narrativa que foi sendo transmitida oralmente, até aproximadamente 1550, ano em que foi escrita. A sobrevivência do texto deve-se ao frade dominicano Francisco Ximénez que no século XVIII o traduziu para espanhol.

Deuses

“Os deuses fizeram de barro os primeiros maias-quichés. Pouco duraram. Eram brandos, sem força; desmoronaram-se antes de caminhar.

Logo experimentaram com a madeira. Os bonecos de pau falaram e andaram, mas eram secos: não tinham sangue nem substância, nem memória nem rumo. Não sabiam falar com os deuses, ou não encontravam nada para lhes dizer.

Então os deuses fizeram de milho as mães e os pais. Com milho amarelo e milho branco amassaram a sua carne.

As mulheres e os homens de milho viam tanto como os deuses. O seu olhar estendia-se sobre o mundo inteiro.

Os deuses exalaram um vapor e deixaram-lhes os olhos enublados para sempre, porque não queriam que as pessoas vissem para lá do horizonte.”

O texto não fala de nós, feijões, mas fala do milho, com quem nós crescemos. A razão é que a maior parte dos documentos originais foi destruída pelos conquistadores espanhóis. O missionário Diego de Landa deixou escrito: “encontrámos um grande número de livros e como não havia neles nada além de superstições e mentiras do diabo, queimámo-los todos, o que lhes causou [aos Maias] grande aflição.”

Existe um grupo no Instituto de Tecnologia Química e Biológica António Xavier (ITQB), liderado pela investigadora Carlota Vaz Patto, que nos tem estudado, a nós, feijões. Podem ver as razões para isso no vídeo seguinte.

 

A Viagem

Os conquistadores tinham chegado à nossa terra em grandes navios, que depois faziam a viagem de regresso, transportando as riquezas roubadas aos nossos humanos. Num desses regressos, juntamente com o ouro e a prata, viajámos nós também, e foi dessa forma que atravessámos o grande mar Atlântico. Ao fim de muitas luas, com sol, vento e chuva, chegámos a uma terra que ficámos a saber era a Ibéria. Fomos acolhidos pelos humanos desta nova terra, que nos adoptaram e com a sua ajuda fomos alastrando por toda a Ibéria e depois pela Europa. E eles nos cultivaram e novas variedades foram aparecendo.

Teste da Paternidade

Muito mais tarde, já no século XXI, o grupo de investigadores que já referi decidiu estudar a nossa espécie, e descobrir a nossa origem. Para isso analisaram o nosso ADN, que compararam com o dos nossos primos da América, e concluíram que os nossos antepassados vieram principalmente da região Andina.

Mas o que vem a ser isto de ADN? É uma molécula que existe em todas as nossas células, e que condiciona o que nós somos quando crescemos. Há fragmentos dessa molécula que indicam de que cor somos, se temos ou não pintinhas, se somos grandes ou mais pequenos, entre outras características.

Então as folhinhas das plantas que nos produzem são colhidas, congeladas, tratadas e dissolvidas, formando uma solução cheia de ADN. Depois, essa solução vai para uma máquina e passa por um gel, que é uma substância cheia de poros (como se fosse uma esponja). Os fragmentos de ADN possuem carga negativa, por isso, quando são submetidos a um campo eléctrico, deslocam-se no gel, e chegam mais longe os fragmentos mais pequenos, que passam mais facilmente pelos poros. É essa distribuição de tamanhos dos fragmentos de ADN, que aparece sob a forma de bandas, que permite ver a semelhança entre feijões de diversas regiões. Os resultados mostram que somos mais parecidos com os feijões dos Andes (temos muitas bandas em comum), o que prova definitivamente a nossa origem.

Após a nossa chegada à Europa, o clima mediterrânico favoreceu a adaptação. No vídeo seguinte é possível perceber algumas das condições favoráveis que permitiram o nosso desenvolvimento.

No laboratório do ITQB, fazem-se estudos sobre o nosso crescimento e resistência a doenças. As imagens seguintes mostram amostras de duas tribos guardadas no ITQB.

Feijão de Cara Verde
Feijão Lindo de Aveiro

 

 

 

 

 

Podemos ler mais sobre os cientistas que investigaram sobre nós e a nossa origem na revista Frontiers in Plant Science, no artigo: “Establishing the Bases for Introducing the Unexplored Portuguese Common Bean Germplasm into the Breeding World”.

Nutrição e Saúde

O nosso nome científico é Phaseolus vulgaris e, além de sermos simplesmente deliciosos, temos um enorme valor nutricional. Todas as nossas variedades são ótimas fontes de proteínas, excelentes fontes de fibra, naturalmente sem gordura, sódio ou colesterol. Somos ainda conhecidos por ser uma fonte de potássio.  Na seguinte tabela estão explícitas algumas das nossas características nutricionais.

NutriFeijão

Além da nossa riqueza nutricional, somos recomendados pelos nossos benefícios na saúde, no entanto, temos de ser bem cozinhados!

Os feijões na saúde.

Sabores

Estamos tão difundidos em diversas culturas, fazemos parte da mesa de tantos povos que hoje em dia somos (re)conhecidos mundialmente, porque para além de nutritivos também somos saborosos.

Já experimentaram o nosso restaurante? Aproveitem! Porque hoje começa a Semana do Feijão!

E para terem uma ideia da nossa popularidade na culinária, até nos fizeram uma música: “Comida de pensão”, de Ivon Curi onde é só “feijão, feijão, feijão”.

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