POR ANA CAROLINA DUARTE FERREIRA, ANA CAROLINA FONSECA BENTO E MARIANA COSTA DE OLIVEIRA

Raízes: um projeto que procura aprofundar a temática das gravidezes veganas, desmistificando algumas ideias pré-concebidas.


Veganismo

Veganismo é um estilo de vida que recusa qualquer exploração e sofrimento animal em todos os aspetos da vida humana. Para além da carne e do peixe, pessoas veganas recusam-se a comer qualquer produto de origem animal, que inclui ovos, leite, queijo, entre outros. Ou seja, a alimentação vegana centra-se em alimentos à base de plantas, como as frutas e as leguminosas, que são também a base da conhecida dieta mediterrânica.

Para saber as vitaminas que mais precisa de ter em atenção, especialmente na gravidez, pela voz de uma especialista. (Use a aplicação Zappar)

Testemunho de Famílias Veganas

De mãos dadas numa ação de protesto contra o consumo animal, uniram-se pela sensibilização contra o sofrimento dos animais na indústria agropecuária. Mais tarde, tornaram-se proprietários do restaurante Kong – Vegan Food, na Baixa de Lisboa, que serve comida 100% vegana para a promoção de uma alimentação saudável e difusão de um estilo de vida. À espera do primeiro filho, vivem este momento das suas vidas confiantes, com normalidade e saúde.
Cátia e o marido são ambos veganos, motivados pela forte empatia sentida para com os animais. Com apenas 3 anos de vida, a filha do casal afirma que “animais são amigos, não são comida” – ainda que com toda a liberdade para experimentar qualquer alimento. Cátia conta-nos como é a experiência da filha face à escola e festas de anos que frequenta.
Gerente do restaurante Kong – Vegan Food, Sara é vegana e mãe de Luna, uma criança de 5 anos vegana desde o nascimento. Com toda a liberdade para experimentar novos alimentos, Luna sabe bem o que quer. Uma prova viva de saúde, bem-estar e felicidade.

Os nossos entrevistados tornaram-se veganos/vegetarianos por três razões principais:

Animais não são comida” é um lema que resume a justificação ética por detrás do abandono do consumo de produtos de origem animal. Veganos recusam qualquer tipo de sofrimento animal infligido pelo ser humano, numa relação de superioridade do segundo face ao primeiro.

O bem-estar dos entrevistados “melhorou significativamente” quando deixaram a carne, o peixe e os laticínios. Essa mudança positiva é sentida, principalmente, na digestão e funcionamento intestinal. Mariana Gameiro, nutricionista, justifica essa melhoria pela maior quantidade de fibra existente nas dietas à base de frutas e leguminosas, como é a vegetariana e a vegana. “A dieta vegetariana não é obrigatoriamente melhor para a saúde, depende dos hábitos. A dieta mais à base de fruta, de legumes e leguminosas, tem componentes interessantes. Além dos nutrientes e das vitaminas, tem a fibra. A fibra é muito importante ao nível digestivo e da evacuação”.

A preocupação com a pegada ecológica também foi apontada por alguns entrevistados como motivação. Segundo os relatórios do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, o impacto da indústria agropecuária na emissão de gases com efeito de estufa para a atmosfera é cerca de 15%. De entre esses gases, encontram-se o dióxido de carbono e o metano. Ainda que algumas plataformas na Internet e documentários admitam que o consumo da carne é a principal causa para as alterações climáticas, é precipitado admitir que existe uma “causa principal” para um problema tão complexo como este.

O que é que a ciência nos diz?

A Direção-Geral da Saúde [DGS], no Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável de 2016, refere que “as crianças e adolescentes são os grupos etários que consomem maior quantidade de leite, iogurte e leite fermentado e de cereais de pequeno-almoço infantis. Em contrapartida, são os grupos da população que ingerem menor quantidade de fruta e produtos hortícolas. De destacar que o consumo de carne se revela superior em todas as faixas etárias, quando comparado com a ingestão de pescado”.

O défice no consumo de hortifruticulturas ronda os 53%, ou seja, mais de metade da população portuguesa come menos frutas e legumes que o suposto numa alimentação saudável e equilibrada. Estima-se também que os portugueses comam 10% de carne a mais do que o recomendado. Para além disso, 76,9% consomem mais de 5g de sal por dia, superior à média segura para evitar problemas de saúde, tais como hipertensão e complicações cardiovasculares, por exemplo.

Mariana Gameiro, nutricionista, reforça que a “a dieta omnívora deve ter sempre por base a dieta mediterrânica” baseada em frutas e legumes, ao qual se adiciona “esporadicamente peixe e carne“.

Contudo, a DGS reporta que 88% da população mostra uma baixa adesão à dieta mediterrânica em Portugal. “Há ainda muito o consumo da carne e do peixe e nós sabemos os malefícios disso a longo prazo, ou seja, se forem em grandes quantidades podem trazer problemas cardiovasculares, ao nível de obesidade”, entre outros, explica Mariana Gameiro.

A Organização Mundial da Saúde [OMS] recomenda o consumo variado e maioritário de frutas, vegetais, legumes, nozes e cereais. Diariamente, deve-se consumir, pelo menos, 400g de fruta e menos de 5g de sal. Açúcares e gorduras não-saturadas (exemplo do mel e do azeite, respetivamente) são preferíveis aos saturados (como bolos, pizzas, etc.), mas ainda assim devem ser evitados.

Quer seja omnívora, quer seja vegan, a alimentação deve ser rica em nutrientes, equilibrada e acompanhada. A Sociedade Científica de Nutrição Vegetariana Italiana afirma que “uma dieta completamente vegana é adequada durante a gravidez, amamentação, infância e crescimento da criança, desde que seja bem planeada”.

O planeamento deve passar pelo acompanhamento nutricional que, segundo Mariana Gameiro, é muito importante em qualquer regime alimentar. Análises e outros exames são essenciais para identificar potenciais défices maternos que, mais tarde, podem passar para a criança. “Na dieta vegana, à partida, obrigatoriamente, tens de suplementar com vitamina B-12. Essencialmente, é vitamina B-12, vitamina D, cálcio, ferro e o zinco. Daí que é muito importante que as mulheres, grávidas e nos primeiros anos de vida da criança, numa dieta vegana, terem algum tipo de acompanhamento nutricional, mesmo para não haver esses défices”, reforça.

A implementação de hábitos de alimentação saudável começa logo a seguir ao nascimento, segundo OMS. As crianças devem ser exclusivamente alimentas com leite materno, até aos seis meses de idade. A partir daí, são introduzidos alimentos complementares à amamentação, que deve continuar até aos dois anos.

Leite materno de mulheres veganas, que seguem uma dieta bem planeada, é uma boa fonte de vitamina B12 e, assim, uma boa fonte de nutrição para os seus filhos”, afirma a Sociedade Científica de Nutrição Vegetariana.

No artigo científico “Vegan Nutrition for Mothers and Children: Practical Tools for Healtcare Providers”, o grupo admite que bebés nascidos de pais veganos têm o mesmo peso que bebés de pais omnívoros, à nascença e que “o crescimento e desenvolvimento de crianças e adolescentes veganos está dentro das médias normais”.

Embora a evidência aponte para a segurança da alimentação vegana para a mãe e o bebé, ainda existe preconceito por parte de alguns elementos da comunidade médica. Mariana Gameiro explica: “Temos médicos de família que são contra este tipo de dieta porque não têm formação de base. Isto acontece em tudo na nutrição. A dieta vegetariana não faz mal, mas tem de haver um planeamento muito importante, para não haver défices. Mas isso é com qualquer tipo de dieta”.

Rebentos de Soja

A secção Rebentos de Soja é uma parte do projeto dedicada a crianças cujos pais são veganos, e que por isso, nasceram e crescem nesse mesmo regime alimentar. Foi-lhes pedido que desenhassem a forma como vêm os animais e os alimentos que comem. Na tentativa de explorar esta visão foi ainda pedido aos pais um registo de áudio.

Ilustração da autoria de Luna, uma menina de 5 anos vegana. O desenho traduz a visão de Luna face à relação entre humanos, animais e o planeta Terra. Com distinção entre bem e mau estar, as legendas dispostas em cima das figuras são também da sua criação.


Seguem-se os desenhos de dois irmãos que representam a sua visão sobre o que comem diariamente: fruta, legumes, sumos, etc. Os meninos são vegetarianos e esperam a chegada do irmão mais novo.

“Os animais são nossos amigos” – Desenho do Benjamim, 6 anos.
“Comer carne ou peixe? Belhéque!” – Desenho do Afonso, 3 anos.

Veganismo é muito mais do que uma dieta, nós nos preocupamos com a nossa pegada ecológica no Planeta, colaborando o máximo que conseguimos com a diminuição de lixo e quando tem que ser feito, pelo menos serem  reciclados de forma adequada.  Além de não comermos nada de origem animal, também não colaboramos com nenhum tipo de exploração. Não vamos a circos com animais, não andamos em cima de cavalo, nem carroça, touradas não, nem nunca iremos nadar com golfinhos por não estarem em seus habitats naturais, não vestimos nada de couro, lã, seda e camurça, não compramos produtos que testam em animais, não assistimos filmes que usaram animais selvagens verdadeiros, etc.

Sarah Lavagnoli

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