António: do Alentejo ao Tejo

Por Bárbara Silva, Maria Alves e Maria Sacadura

Palletti deveria ter sido o apelido de António, fruto das origens italianas da família, como comprova com a árvore genealógica que carinhosamente guarda e que remonta ao ano de 1800. Porém, na altura era tradição imperar a palavra e a vontade do padrinho, que quis que o seu afilhado tivesse o seu apelido. E assim foi, Guerreiro foi o nome que António herdou.

Árvore genealógica da família Paletti
Árvore genealógica da família Palletti

Com o Alentejo no sangue, na pronúncia e no coração, António conta como passou uma infância feliz, vivendo, desde cedo, com a tia e a irmã, ambas modistas, que “tão bem o arranjavam e cuidavam”. Frequentou a escola até ao 4º ano, onde levantar a saia às meninas valia, na altura, “por sorte só doze palmatoadas”. Não chegou a conhecer o pai, e a mãe sofria de depressão, que na altura não era reconhecida como uma doença.

Com a tenra idade de 14 anos começou a aprender o ofício de serralheiro, onde amealhava 15 tostões por semana, “que hoje em dia nem conta têm”. Foi assim construindo o seu pé de meia, que permitiu a compra da tão desejada Vespa que o guiava pelas planícies do seu Alentejo. Trabalhou nesta arte até aos 19 anos, altura em que rumou a Mafra.

Quando voltou às origens imperou uma pergunta vinda do Comandante do Posto da GNR de Almodôvar: “Queres andar toda a vida cheio de ferrugem?” E assim começou o caminho de António na Guarda Nacional Republicana. Um percurso pautado por contingências provocadas pelo preconceito das origens de terras alentejanas, conotadas com o comunismo, que o impediram de subir na hierarquia.

Nos tempos da GNR
Nos tempos da GNR

Numa das pausas do trabalho, António fez uma excursão a Espanha, onde conheceu a mulher da sua vida. Um amor que era visto como impossível, venceu. Namorou Maria Matos durante 5 anos, e em 1959 decidiram marcar o casamento.

Para a família de Maria, mais abastada, António era um mero oficial da GNR, sem estatuto nem posses dignas. Três dias antes do casamento, o casal soube que a família não aprovava o matrimónio, porém, decidiram seguir em frente e casar sem a presença da família e dos padrinhos previamente escolhidos.

O casamento, que estava marcado para dia 12, aconteceu antes dia 9 de Outubro de 1959, na igreja Matriz de Castro Verde, com a ajuda do Padre Reis e de padrinhos improvisados. Na manhã seguinte, apenas com uma mala de cartão, Maria esperava António à porta de sua casa para rumarem a Lisboa. Os recém-casados partiram para a viagem que iria marcar o resto das suas vidas.

O casamento de Maria e António
O casamento de Maria Matos e António

António apenas tomou contacto com a vida política em 1953, ano em que chegou a Lisboa para trabalhar na Guarda Nacional Republicana e se recenseou pela primeira vez. Até essa data, e a viver no Alentejo, o acesso à dimensão política e tudo o que ela acarreta, não era contemplado na vida de António nem de nenhuma das pessoas provenientes da sua aldeia.

Já ao serviço na GNR, era-lhe imposto votar duas vezes na União Nacional, o partido de Salazar. Votava na freguesia onde vivia e voltava a votar na freguesia onde trabalhava.

Revolução dos Cravos
Revolução dos Cravos

Nos tempos da repressão, sentia-se uma tensão no ar e um clima de sufoco geral. As pessoas não se podiam juntar e as histórias de detenções por suspeitas mínimas de conspiração eram recorrentes. António relata um episódio com um vizinho seu, que foi preso por apanhar um simples papel do chão do eléctrico.

“Contra o Estado não se podia falar porque havia sempre pessoas a escutar”, diz ainda com um certo peso na voz.

Hoje em dia, entre o jornal que compra todos os dias e as excursões frequentes com a associação da qual faz parte, António assume-se como uma “pessoa informada da actualidade”. A sua veia de atleta ainda está presente, todas as semanas arranja o seu saco de ginásio e ruma à piscina. Não dispensa o café diário e a companhia dos seus amigos do bairro, “porque o melhor é aproveitar enquanto podemos cá andar”.


Fontes:Arquivo do Expresso; Jornal Popular Mudar de Vida; Arquivo da RTP

Submit a comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Time limit is exhausted. Please reload the CAPTCHA.