Maria e Manuel: sim, gosto de Brahms!

Por Bárbara Silva, Maria Alves e Maria Sacadura

Aimez-vous Brahms: o livro que uniu o lisboeta mais intrínseco que há e a luso-espanhola que conduzia um Fiat 600.

Café Roma
Café Roma

Maria Helena nasceu em 1932, numa terra raiana da Beira Alta. Descendente de um casamento entre um português e uma espanhola, viveu os primeiros anos da sua vida na zona fronteiriça de Aldea del Obispo. Desde pequena habituada a falar as duas línguas, não sabe com qual disse pela primeira vez madre ou mãe.

Na infância fez muita traquinice. A sua adoração por chocolate vem dessa época: um dia, com cerca de três anos, desapareceu durante horas. Deram com ela numa despensa, coberta de chocolate “de cima a baixo”. Não conseguia esconder um sorriso de orelha a orelha, mas mesmo assim foi capaz de dizer com toda a firmeza que aquilo era simplesmente uma prenda para o irmão, “qué él comía poco, poquito…”. Desculpas de criança.

Esta entrada no mundo dos negócios foi um sucesso e contribuiu para que Manuel descobrisse a sua veia para o negócio. De facto, adorava provocar o pai e sugerir novas ideias. Porque não produzir fatos de trabalho ergonómicos e com cores inovadoras? O boom da construção civil, aliado ao interesse do jovem por motos, fez com que operários, mecânicos e pilotos se tornassem clientes da casa.

Também Maria Helena cresceu nessa zona de Lisboa. Lisboa era calma: a Av. Roma era uma quinta, a Quinta de S. João. Tudo terminava no Areeiro. Depois disso, só havia terras. Na altura, havia um grupo de miúdos do bairro que se juntava para patinar, jogar futebol ou brincar às caricas. Um dos rapazes da trupe era o super-herói da zona: descia a Av. Óscar Monteiro de Torres a abrir e, ao chegar à praça de toiros do Campo Pequeno, saltava por cima dos carris – enquanto os amigos ficavam “a controlar se o eléctrico passava ou não”. Maria Helena, mais cautelosa e ajuizada, descia a rua em curvas e contracurvas, para controlar a velocidade.

Patinagem na Av. Roma
Patinagem na Av. Roma

O advento da Segunda Guerra Mundial não estorvou as brincadeiras; pelo contrário. Os relógios avançaram duas horas, o que significava que havia mais tempo para brincar na rua! O único senão é que as janelas das casas tinham obrigatoriamente de ter fitas cruzadas para prevenir estilhaços em caso de bomba. Quanto aos estudos, fê-los no Liceu Filipa de Lencastre, que na época era só para meninas. Salazar não gostava cá de misturas.

Manuel, esse, estudou na Eugénio dos Santos. No caminho de casa para a escola, cruzava-se com “as miúdas giras do Filipa”. Uma dessas míudas tinha o nome de Maria Helena, por quem Manuel se viria a apaixonar e, mais tarde, casar.

Manuel concluiu o Instituto Comercial, equivalente ao actual Ensino Secundário. Fez o exame do Liceu e entrou em Económicas. Não terminou, “por coisas da vida… e das saias”. Ainda estava a estudar e já Maria Helena trabalhava na Embaixada da Colômbia, lugar ocupado apenas por pessoas fluentes nas duas línguas, português e espanhol, algo raro na altura.

Mulher independente e moderna para a época, Maria Helena decidiu também tirar a carta de condução. Comprou um Fiat 600, que a acompanhou em diversas aventuras. Uma delas foi na passagem de ano de 1961 para 1962, no regresso da viagem ao Porto para o funeral do um cônsul. Chovia a potes, o carro avariou inúmeras vezes no caminho, mas Maria Helena mantinha a esperança de passar o ano novo com a família, porém só chegou de madrugada.

À sua porta, tinha à espera o futuro marido, preocupado não só por ser tão tarde mas também pela agitação que decorria da Revolta de Beja.[1]

Fiat 600
Fiat 600

Havia uma grande pressão política sobre os alunos. Na altura do Instituto Comercial, muitos dos professores e contínuos eram informadores da PIDE. Um dia, um dos professores de Manuel apareceu na aula “de pistola à cintura”, o que gerou uma grande revolta na turma.

De facto, alunos de diversas escolas e universidades questionavam o regime ditatorial. Em 1962 Manuel juntou-se à revolta estudantil que invadiu a cidade universitária. Na altura, Jorge Sampaio presidia à RIA (Reunião Inter-Associações Académicas). O futuro Presidente já dava cartas na actividade política.

Decorria o ano de 1964 quando Manuel entrou na vida militar, já com um filho nascido. Não era possível adiar mais, muito embora ainda não tivesse acabado o curso[2]. Como era estudante universitário, calhou-lhe o curso de oficiais milicianos, cuja recruta durou oito meses. A tensão era muita.. Por sorte, Manuel ficou na área da Administração e depois conseguiu regressar à vida civil.

Havia muitas forças da PIDE infiltradas no exército, tanto em território nacional como em África. Estávamos em plena guerra colonial. A tensão crescia a cada dia. Até os oficiais do quadro permanente começaram a demonstrar o seu descontentamento face ao regime, os rebeldes! Houve diversas tentativas de golpes de Estado.

“Já havia qualquer coisa no ar”, diz Maria Helena. E eis que o dia chegou. O casal recebeu uma chamada às seis da manhã alertando para que não levassem os filhos à escola. Maria Helena decidiu então ficar em casa com as crianças e a mãe, que estava assustada por ainda ter muito vívida na memória a Guerra Civil Espanhola.

As manifestações pela liberdade multiplicavam-se e toda a gente parecia pensar “posso finalmente dizer o que penso”. De facto, segundo Manuel, houve um movimento espontâneo das pessoas. Seguiu-se o Verão Quente de 75 e a agitação era imensa. Formaram-se diversos movimentos (Soldados Unidos Vencerão, os Vota no Castelo, etc.) Em Julho, uma manifestação reuniu cerca de um milhão de pessoas na Alameda.

Mário Soares
Mário Soares

Entretanto, assim como Maria Helena, Manuel foi construindo uma vida profissional bastante activa. Já adulto e com dois filhos, licenciou-se em Sociologia. Trabalhou na área do retalho e da publicidade. Pôde viajar muito e sempre que possível levou a mulher consigo. Juntos percorreram mais de 50 países.

Maria Helena recusa-se a estar parada e hoje até se aventura no Facebook e no Instagram. Manuel também se mantém activo na Associação dos Chocolates e frequenta aulas de História das Religiões na Universidade Sénior. Isso da reforma total é para meninos!


 

[1] A Revolta de Beja foi uma acção contra o regime salazarista que ocorreu na noite da passagem de ano de 31 de Dezembro de 1961 para 1 de Janeiro de 1962. Foi um golpe civil e militar que pretendia derrubar o regime tomando de assalto o Regimento de Infantaria nº3 daquela cidade.

[2] Na altura, os estudantes do ensino superior tinham a possibilidade de adiar a entrada na tropa.


Fontes: Arquivo RTP; Jornal de Notícias; Sindicato Nacional dos Trabalhadores dos Correios e das Telecomunicações

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