Melodias em Espanhol: Histórias da Globalização

Salsa, do barrio para o mundo

Desde a sua origem, East Harlem foi uma ilha na cidade. Nele, concentraram-se sucessivas vagas de imigração que chegavam  em busca do sonho americano: fugiam da pobreza, da fome, da insegurança e partiam à procura de oportunidades. Em vez disso, encontraram um brutal sistema de desigualdades. Os preços inacessíveis do resto da cidade empurraram-nos para as margens, para bairros empobrecidos, que funcionavam como autênticos guetos culturais.

O East Harlem conjugou, ao longo de toda a sua história, diferentes grupos étnicos e culturais- desde judeus e italianos, que fundaram o velho Italian Harlem, até porto-riquenhos, dominicanos, mexicanos e cubanos. Assim, o Spanish Harlem, como ficou a ser conhecido nos anos 50, funcionava como um enclave para a comunidade latina da cidade. No coração de Manhattan, o El Barrio era um mundo à parte, enclausurado no seu seio de pobreza, crime e marginalidade. Entre os prédios corroídos, floresciam identidades híbridas, próprias daqueles que se sentiam a meio caminho entre dois lugares. A terra dos pais estava em todas as esquinas; ouvia-se nas vozes e nos sotaques; cheirava-se nas cozinhas. Sentia-se nos ritmos da música.

East Harlem: o berço da salsa

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Los Nuyoricans

Para ouvir: America (1962), Leonard Bernstein, da OST original do filme West Side Story

Os Nuyoricans são os porto-riquenhos que trocaram as águas amenas de San Juan pelos edifícios frios de Nova Iorque; nasceram já na grande cidade, mas conservam raízes nas Antilhas; são os netos e bisnetos de migrantes, que não conhecem sequer o mar das Caraíbas, mas ostentam, orgulhosos, a bandeira de Porto Rico à janela. Eram uma minoria étnica orgulhosa. Conservavam partes substanciais da sua cultura, como o idioma, a cozinha e as tradições. Simultaneamente, dialogavam com as diferentes identidades que se reuniam no Barrio. São eles que transportam as tradições do mambo, rumba e do son cubano, a par do jazz afro-americano, para os clubes, unindo linhas dispersas e criando algo novo.

A vida no El Barrio era pontuada por enormes dificuldades económicas. A violência de gangues opunha fações étnicas. Desde cedo, os Nuyoricans enfrentaram discriminação na cidade. A situação quase segregacional era nociva, difícil de escapar. A par disso, a toxicodependência tornava-se um problema galopante. O mais conhecido retrato deste mal-estar social é a peça West Side Story, que pinta um quadro de flagrante criminalidade e ódio racial. Apesar disso, os anos 60 foram um passo na emancipação política dos porto-riquenhos. Existiram inúmeras tentativas para reabilitar o bairro e preservar a sua cultura. Durante algumas décadas, o Spanish Harlem parecia dar sinais de renascer.

As sementes de Cuba

Para ouvir: Echale Salsita (1930), Ignacio Piñero

Muito antes da popularização da salsa, diversas correntes musicais tomaram de assalto a noite dos bairros hispânicos em Nova Iorque. As décadas de 20 e 30 viram surgir grandes fluxos de imigração laboral de Cuba para os EUA. Os imigrantes fixaram-se sobretudo no estado da Florida, mas uma porção considerável preferiu deslocar-se para Nova Iorque e Nova Jérsia. Assim, a construção de um caminho definitivo para o surgimento da ideia de salsa foi trilhado sobretudo pela música cubana.

Para ouvir: Mambo Infierno (1954), Machito & His Afro-Cubans

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Nos anos 50, o mambo conquistou os clubes de Nova Iorque. Um dos maiores pontos de difusão foi o Palladium Ballroom, na Broadway. Até 1947, o salão de baile estava em triste declínio. Os casais brancos que o frequentavam raramente enchiam a sala. Até então, a única banda latina (e negra) que tinha conseguido um lugar confortável na Broadway era a de Machito e os seus The Afro-Cubans, que tocava uma mistura de ritmos afro-latinos com jazz. Começaram como uma experiência alternativa para captar audiências para o Palladium. Longe daquilo que era esperado, o seu sucesso foi extraordinário. Os anos seguintes viram nascer a mambo craze, com o crescimento de artistas como Tito Puente, Tito Rodríguez e o próprio Machito. O Palladium tornou-se o berço de um movimento musical em expansão.

Para ouvir: Componte Cundunga (1961), de Tito Rodriguez

O crescimento das charangas, bandas de inspiração cubana, veio introduzir o cha cha cha. O jazz juntava-se aos ritmos latinos, e fundou uma musica  vivaz, contagiosa, que apelava à dança. A pachanga foi outro dos estilos musicais que cresceu, no final dos anos 50 e no inicio dos 60, impulsionado por orquestras cubanas. A par da pachanga, nasce também o boogaloo, tocado por jovens bandas de porto-riquenhos, que se inspiram nos ritmos de Cuba e no R&B afro-americano. 

Rumo ao estrelato

Para ouvir: Azúcar (1964), Eddie Palmieri

Em janeiro de 1959, Fidel Castro terminou a sua longa marcha até Havana. A revolução tinha sido ganha. Até esse momento, Cuba tinha sido o grande centro de difusão da música latina. A crescente animosidade entre Cuba e os EUA vai moldar a vivência das comunidades latinas imigradas. A crise dos mísseis e o embargo vieram intensificar mais o clima de tensão. A cultura cubana começa a ser olhada de viés. Os grandes salões de dança, como o Palladium, frequentados pelas elites, deixaram as tradições cubanas para trás e, mais tarde ou mais cedo, fecharam portas. As agências discográficas cortaram laços com tudo o que remetia para sons de Havana. Muitas das anteriores orquestras de pachanga viram-se agora para o jazz, que se tornava um porto seguro. Outras refugiaram-se nos pequenos clubes dos enclaves latinos, como East Harlem, longe do glamour e dos grandes palcos.

Com o fechamento dos gigantes discográficos, as inovações estilísticas aconteciam em plataformas mais pequenas. Eddie Palmieri ganhou importância como precursor da salsa ao introduzir na sua música o som distinto dos trombones. A ausência de um modelo cubano deixou os pequenos artistas à deriva na construção de novas sonoridades. O seu trabalho foi, em parte, o de conciliar as antigas tradições com novos mundos.

Para ouvir: Soul Sauce (1964), Cal Tjader

Outra figura de enorme relevo para a construção da salsa foi Cal Tjader, que alcançou enorme reconhecimento com o lançamento do seu Soul Sauce (1964). A imagem do seu álbum tornou-se icónica por nos servir chilli e molho picante. Não é o primeiro a usar salsa para designar música. Contudo, apenas com ele o termo começou a ganhar força. O álbum de Tjader acabou por viajar para lá de Nova Iorque. Com ele, outros se afirmaram nos alicerces da salsa. Carlos Santana é um deles. Na viragem para a década seguinte, começamos a ouvir o rastilho que dá origem à explosão da salsa.

Salsa na Revolución

Para ouvir: Black Magic Woman (1970), Santana

A situação de exclusão dos porto-riquenhos colocava-os longe dos centros de poder. A toxicodependência, o desemprego e violência de gangues eram problemas que minavam a ascensão social dos Nuyoricans, que se viam presos a um ciclo de pobreza e discriminação. A grande maioria tinha cidadania americana, mas, invariavelmente, encaravam um sistema que os via como cidadãos de segunda classe. Contudo, os anos 60 foram um ponto de viragem. A proximidade geográfica a comunidades afro-americanas, investidas nas lutas contra a segregação racial, permitiu plantar a semente da revolta. Assim, em 1968, nasceram os Young Lords, em Chicago. Nos anos seguintes, o grupo organiza-se e expande-se para outras cidades com grande presença porto-riquenha.  Não tardou a que chegassem a Nova Iorque.

A política dos Young Lords começava nas ruas.  O bairro tornava-se um centro político, onde se aplicavam programas sociais. Lutavam para afirmar uma identidade e um lugar discursivo, face àqueles que não lhes ouviam a voz. Mais do que incrementar as suas comunidades, estes jovens porto-riquenhos debatiam-se contra um sistema opressor.

Neste clima de reivindicação social, uma minoria de artistas ousou politizar a sua música, ao deixar para trás os motivos amorosos herdados da música cubana. A salsa tornou-se a alma dos bairros latinos. Apresentava uma visão verdadeiramente nuyorican da realidade: abria as cortinas para os guetos marginalizados, sem ocultar a dureza da vida que lá se vivia. Os artistas inscreviam nela um grito de presença, para acordar o país que os esquecera. Num tempo em que os habitantes dos bairros começavam a tomar consciência política, a salsa tornou-se uma arma nas mãos dos oprimidos. Concretizou-se, por isso, como um estilo musical pan-latino, capaz de agregar à sua volta diferentes identidades étnicas e culturais, que sentiam semelhantes dificuldades e barreiras. As comunidades hispânicas de Nova Iorque não se resumiam a porto-riquenhos, e a salsa deu a todas estas nacionalidade um lugar comum.

A explosão da salsa!

Para ouvir: Anacaona (1971), Fania All Stars

O Cheetah estava longe da sofisticação do Palladium, nos dias de ouro do Mambo. Apesar disso, o caráter rudimentar do local não impediu que se tornasse extraordinariamente relevante na difusão daquilo que, mais tarde, seria apelidado como Salsa. De facto, unanimemente, aponta-se para a importância de uma noite em particular — 21 de agosto, de 1971. Nessa quinta feira, os Fania All Stars tocaram juntos pela segunda vez.

 A Fania Records foi fundada em 1964, por Johnny Pacheco, um líder de banda dominicano. No início, cimenta-se como uma pequena produtora independente. Contudo, em 1967, sobe as escadarias do sucesso, através de uma voraz estratégia de gravação e promoção. No início da nova década, a Fania colecionava já um conjunto de artistas talentosos, que haviam nascido e crescido na miséria de East Harlem. O som das suas músicas era a melodia do Barrio: o ritmo de terras distantes, que ecoava pelos edifícios precários e nos parques apinhados. O dinamismo desta salsa em construção era o resultado da mobilização de uma juventude ativa na comunidade. Aquilo que, até ao início da década de 70, tinha tido títulos vagos, começou a ser promovido pela Fania Records como salsa. O apelido não agradou a todos. De facto, grande parte da geração de ouro do Mambo recusou-o veementemente. Tito Puente, o “Rei do Mambo”, chegou, celebremente, a afirmar: “A única salsa que conheço vem em garrafas. Eu toco música cubana”. Estes artistas pensavam na salsa como uma mera designação comercial. Ignoravam as inovações estilísticas e a nova atitude que nascia nos bairros periféricos. Esta discussão geracional nunca chegou realmente a desaparecer, mas o termo enraizou-se.

O estilo musical espalhou-se, à medida que uma nova febre musical contagiava Nova Iorque e, depois, o mundo. Aquela noite no Cheetah serviu para mais do apresentar os Fania All Stars; a gravação da atuação gerou tanto um álbum como um filme: Nuestra Cosa Latina (Our Latin Thing). Estes precipitaram ainda mais o processo de difusão da salsa. Para além disso, a sua popularização  contou com o apoio de outra grande figura relacionada com o género: Israel “Izzy” Sanabria, o Mr. Salsa. O seu papel enquanto diretor artístico da Fania Records ajudou a criar uma identidade visual arrojada e memorável para os discos e cartazes. Depois de se tornar editor da Latin New York Magazine, o estilo musical começou a figurar com frequência nas páginas da revista — a par do seu distintivo estilo de ilustração.

Tudo isto promoveu um aumento exponencial da cobertura jornalística feita à salsa. Deixou de ser um fenómeno local para se projetar à volta do mundo. Publicações desde a Europa ao Japão acorreram a Nova Iorque para documentar a salsa e, na viagem de regresso, levavam um pouco da música consigo. Assim, a salsa tornou-se um fenómeno à escala global. Mais do que isso, a sua fundação baseia-se no encontro de diversos mundos numa zona muito delimitada da grande cidade, que proporcionou trocas e contactos culturais. Cria-se uma pequena globalização numa periferia de Nova Iorque.

Salsa Requentada

Para ouvir: Ven Devórame Otra Vez (1988), Lalo Rodriguez

 

Nos anos 80, em vez de um sabor picante que chama para a dança, os novos artistas começam a apostar num gosto mais doce e suave, marcando este período como a era da salsa romântica. A vivacidade da salsa “dura” atenua-se largamente neste novo som. Os artistas eram, sobretudo, jovens mais americanizados e distantes do arquétipo hispânico que tinham os seus antecessores — tornando-os muito apreciados entre o público feminino.

Para ouvir: La Cita (1993), Galy Galiano

Estes artistas rapidamente abdicaram da espontaneidade das sessões ao vivo, construindo o seu sucesso em torno de canções gravadas em estúdio, orientadas para a fantasia de um ardente romance.  No mercado da música, o ideal do príncipe latino prestes a avassalar jovens apaixonadas começa a render — e não poderia ser melhor acompanhado do que pelos ritmos suaves e americanizados da salsa romântica. Galy Galiano traz à Billboard um encontro proibido, no seu tema “La Cita”, e Lalo Rodriguez parte para o próximo nível com evidentes contornos eróticos em “Ven Devórame Otra Vez”. Os músicos de salsa dura, no entanto, não são fãs. Esta música insonsa, vendida e deslavada não devia ser sequer ser rotulada como salsa — o que lhe valeu o título de salsa monga.

Um caminho para o esquecimento

Os anos 80 ficaram marcados por uma tendência de internacionalização da salsa, que começa a popularizar-se um pouco por toda a América Latina e a ser um género apreciado na Europa. Em Tóquio, nascia também a mais famosa banda de salsa do Japão, a Orquesta de La Luz, cujo tema “Salsa Caliente del Japon” ocupou o primeiro lugar na Billboard Tropical Chart durante 11 semanas, em 1990. Porém, enquanto os japoneses aprendiam a cantar em espanhol, os artistas hispânicos começam a trazer para a salsa o inglês — ou, antes, o “Spanglish”. 

Orquesta de La Luz atuam em Tóquio para uma grande plateia

Para ouvir: Vivir La Vida (2013), Marc Antony

A cena musical da salsa encontra, nos anos 2000, o seu trágico destino. Os músicos das prestigiadas bandas que tocavam nos clubes de Nova Iorque começam, aos poucos, a dar a reforma aos instrumentos. Grande parte dos clubes fecha, após investigações policiais terem descoberto esquemas de lavagem de dinheiro ou tráfico de drogas. Os grandes êxitos da salsa tornam-se irreconhecíveis, pois os novos animadores da cidade, os DJ’s, desfiguram-nos em remixes que mais agradam às novas plateias — jovens que ainda gostam de dançar os ritmos da salsa, mas com menos fulgor. A salsa começa a diluir-se com as sonoridades da Bachata e do Reggaeton, que se tornam pop culture no virar do século, com artistas como Marc Antony ou La India. Para os mais nostálgicos, continua a ser possível assistir a espetáculos de salsa nos clubes mais exclusivos, mas os mesmos vão se tornando cada vez mais raros — e caros. Uma nova vaga de gentrificação transformou o Harlem num novo espaço cultural, artístico e económico. Muitos dos clubes nova-iorquinos não resistiram e fecharam completamente. Por entre as suas paredes, ressoam apenas os ecos passados da glória da salsa.

Se quiseres conhecer mais sobre a salsa, aqui fica a playlist completa.

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